#16: Creatina
sobre futuro, crises geracionais e massa magra
Comecei a suplementar whey e creatina. Sinto que é uma coisa meio geracional isso: a busca por estabilidade sendo lentamente substituída pelo desejo de ser uma velha fortona, que consegue abaixar para amarrar os sapatos, sem precisar de ajuda. Hoje, massa magra é algo mais fácil de adquirir do que previsibilidade e, na medida em que o conceito de aposentadoria vai ganhando ares de reminiscência, cultivar a autonomia vira um projeto que precisa começar agora – ao menos é nisso que eu me apego, enquanto bato minha banana com leite de amêndoas e pozinhos que deixam tudo com o mesmo sabor.
Tenho pensado muito sobre ficar mais velha. Trinta e cinco anos, aquela coisa, para alguns pode não parecer muito, mas já é um tanto. As amigas de escola tendo filhos, a percepção de que não vai dar para fazer tudo assentando a cada nova escolha, a paciência diminuindo tanto, mas tanto, que “reuniões que poderiam ser e-mails” deixam se ser um fato da vida e viram uma ofensa pessoal, um crime roubar o tempo de vida dos outros assim, será que ninguém percebe?
Nesse processo, acho curioso pensar que um dos procedimentos estéticos de rejuvenescimento mais comuns, a injeção de botox, tem como princípio a paralisia. Congelar a musculatura no tempo, imobilizar a pele para que ela não transpareça ter a idade que tem, como se segurar bem firme no assento fosse o suficiente para fazer uma montanha-russa parar de se movimentar. A gente sabe que não é, ainda assim…
A mesma lógica se aplica ao congelamento de óvulos, essa oferta que nos últimos anos virou tema de tantas crises e conversas entre amigas. A clínica descolada com identidade visual bonitona que substitui as cores pasteis e feições desafetadas normalmente associadas à maternidade por ilustrações moderninhas de romã e outras frutas anuncia: congelamento de óvulos para quem quer parar o tempo. A publicidade é um troço engraçadíssimo.
Outro dia mesmo, no alto de um prédio em construção aqui perto de casa, vi o cartaz de um banco dizendo: vem aí um futuro de muitas possibilidades. Fiquei pensando em quanta indefinição cabe na semântica de uma única frase: vem aí – ainda não chegou, tá vindo, uma promessa, presságio, profecia; um futuro – amanhã, depois, ano que vem, ninguém sabe; de muitas possibilidades – hipóteses, portas em aberto, eventos possíveis, mas incertos; abundantes, mas inquantificáveis. Com os olhos fixos na placa, dei risada. Entre clínicas de estética e fertilidade, bancos talvez sejam as instituições que melhor entenderam a passagem tempo: expectativa, potencial e indefinição. Melhor vender crédito, então.
Mas tem quem entenda melhor. Lógico que tem. Ainda bem que tem: Janine Antoni, por exemplo, artista visual natural das Bahamas que, em 2002, voltou à praia onde passou a infância, posicionou uma corda na linha do horizonte, acompanhando o mar, e caminhou sobre ela. O vídeo da performance deu origem à instalação Touch, sobre a qual a artista revela: “Eu sempre pensei no horizonte como uma coisa impossível de ser fixada; você se aproxima e ele retrocede. Ainda assim, eu queria caminhar sobre este lugar impossível". Ainda assim, queremos todos, Janine, encarnar é fazer morada no tempo, um tipo de corda bamba também, eu acho. Como dar conta disso?
“Eu pratiquei uma hora por dia, todos os dias. Depois de uma semana, comecei a sentir que estava ganhando equilíbrio. Mas o que eu fui percebendo é que não era isso. Na verdade, eu estava ficando mais confortável com o desequilíbrio", Janine revela sobre o processo. O grande barato, ela continua, é ser capaz de não reagir em excesso: quando você não fica nervoso com a possibilidade de se desequilibrar, consegue compensar o movimento do corpo na medida do que é necessário, sem exageros. “Eu queria fazer isso na minha vida sempre", ela conclui. Eu também, Janine.
Menos rigidez e controle, mais prazer e flexibilidade, aceitar que mesmo agora, enquanto estou sentada no sofá com o computador no colo, há algo dentro de mim andando para frente, irrefreável, uma hora aprendo, espero, enquanto isso, faço o que posso, suplemento e me alongo mesmo, é o jeito, porque haja músculo pra tanto horizonte. Haja corpo pra tanta vida.



Má, quanta lucidez e sensibilidade! Maravilhoso o texto
Adorei, adorei! Vi o vídeo desta artista uma vez em Santiago de Compostela e me marcou muito ❤️