#15: Estrada
A realidade talvez seja a única possibilidade para o amor
A gente podia se chamar Irene e Waldir, nós dois, naquele carro, a caminho de Poços de Caldas, na nossa primeira viagem juntos – ele contador, ela professora de educação infantil numa escolinha de muro baixo em alguma praça da matriz perdida no interior de São Paulo – e não eu e você, duas pessoas que, por terem lido livros demais, acham que conseguiram se blindar das banalidades do amor.
Falamos sobre relacionamentos abertos com naturalidade, usamos palavras como acordos, responsabilidade afetiva e crenças limitantes, mas ali, naquele carro, a caminho de Poços de Caldas, poderíamos ser dois recém-casados num Chevette azul-calcinha em direção ao principal destino de luas de mel dos anos 1980, já que, assim como Irene, a única coisa que passava pela minha cabeça era como manter em segredo o fato de que tenho olheiras. Não manteria. Do mesmo jeito que você – ou Waldir – seria incapaz de esconder que ronca e acorda desnorteado, feito uma criança dormindo fora de casa pela primeira vez. Porque a intimidade, essa sim, é a maior das viagens, uma expedição sem passagem de volta por todas as coisas miúdas e esquisitas que compõem um outro visto de perto.
Nessa excursão, não importa a quantidade de Lacans ou bell hooks que supostamente nos separem, eu, você, Irene e Waldir, ocupamos a mesma posição: a de quem morre de medo de ter que pedir ajuda porque entupiu o vaso sanitário. Danem-se os tratados sobre vulnerabilidade e a consciência muito bem elaborada das minhas próprias limitações: eu não quero que você veja que eu acordo com remela. Ponto.
Parece que, tão logo o outro descubra as nossas sujeiras, logo ele vai desistir, perceber que a gente não é digno de tamanha paixão e partir para outra. Viagem perigosa. Dá pra descobrir muita coisa sobre uma pessoa dividindo o mesmo quarto durante três dias e duas noites em Poços de Caldas e isso, Irene e Waldir concordariam comigo, é a maior ameaça para os apaixonados: a realidade. E todos os limites que vêm com ela.
Mas aí eu acordo – com remela – e você me olha sonolento, sem saber se estamos em Guaratinguetá ou Salvador, um pouco de baba presa na barba, dá um bocejo e me puxa pra perto. E a gente não fala nada, só cochila de novo até levantar no susto e sair correndo para não perder a hora do café da manhã. A realidade é a maior inimiga dos apaixonados. Mas a realidade talvez seja a única possibilidade para o amor – e desconfio que Irene e Waldir concordariam comigo aqui também.
Pelo menos é isso que parece quando, no carro, deslizando por uma estrada quase escura, Irene abre a garrafa d'água instantes antes de Waldir dizer que está com sede, do mesmo jeito que, desde que começamos essa viagem sem retorno, eu também tenho feito pra você.
permeável é uma coletânea de coisas pequenas, mas nem por isso desimportantes. se você gostou do que leu, considere assinar ou indicar para alguém. essa é a melhor forma de fazer esse grupo crescer!



Ai, gente! É tão desse jeito mesmo!
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